Pais como pequenas amostras do mundo

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A conexão profunda entre mãe e filho, por causa da gravidez e amamentação, é inegável. Mas um novo ator ganha cada vez mais espaço e importância. O pai deixou de ser aquela figura distante para se tornar um personagem influente na personalidade da criança, um companheiro na hora de educar e criar, alguém que sabe trocar fraldas, esquentar mamadeira, cuidar, ensinar.

Para a psicóloga Fernanda Lanz, a mãe é uma personagem fundamental nos primeiros meses de vida do bebê. “Ela é responsável pela primeira noção de mundo que a criança vai ter. A relação entre mãe e filho é determinante no modo como vão se estabelecer todas as outras relações ao longo da vida”, destaca. No início da vida, o bebê sente-se indiferenciado da própria mãe. A relação dos dois, segundo Fernanda, é tão intensa, que faz com que se sintam um só. Porém, o pai também estabelece uma relação muito intensa e significativa com o seu bebê. “Mas é uma relação diferente. E essa é justamente a importância dela – ser diferente. O pai, ou quem exerce a função paterna, vai ser responsável por mostrar à criança que existe um mundo para além da sua mãe”, enfatiza Fernanda.

Cabe ao pai a função de propor desafios à criança, de convocá-la a experimentar novas sensações, de arriscar-se em outras formas de ser, diferentes daquelas estabelecidas com a mãe. “O pai ajuda a criança a estabelecer a noção de limites, de fronteiras – sejam as do próprio corpo ou as que ela vai estabelecer em relação às regras e às outras pessoas. Tudo isso, quando feito a partir de um lugar afetuoso e de muito amor do pai, vai ser essencial para a criança situar-se em relação às leis e normas da sociedade na qual está inserida. Os pais precisam ser pequenas amostras do mundo”, diz a Especialista em Estimulação Precoce.

Para as mães, é bastante delicado perceber e permitir cuidados que sejam diferentes dos seus, reconhece Fernanda. A entrada do pai na relação e nos cuidados do bebê, diz, precisa ser desejada por ele e, de certa forma, autorizada pela mãe. “Muitos casais enfrentam dificuldades na divisão das tarefas porque os pais acabam sentindo-se desautorizados a exercê-las e acabam, por vezes, ficando de fora. Eles precisam, ao mesmo tempo, reivindicar seu espaço a partir do próprio desejo, e não de uma imposição”, reforça. Mas ela garante que quando se tem um pai participativo, até a relação do bebê com a mãe é muito mais saudável. “É importante para o bebê que seus pais possam encontrar meios de dividirem as tantas responsabilidades nos seus cuidados pois isso faz diferença na maneira como vai estabelecer as relações com os dois ao longo de seu desenvolvimento. Uma criança que cresce em uma relação de excessos com a mãe, onde não há a entrada de outras pessoas no processo de criação dela, acaba tendo maiores dificuldades durante o seu crescimento”, registra a psicóloga. Uma relação saudável com os pais, onde os dois tenham espaço e responsabilidade pelo filho, tem mais efeito no sentido de a criança tornar-se confiante, corajosa e autônoma.

Envolvimento – Hoje se fala muito em pais que ajudam mais as mães. Fernanda levanta a discussão que é preciso pensar, no entanto, que não basta ‘ajudar’; é preciso envolver-se ativamente e compreender efetivamente sua parcela de importância naquelas tarefas. Segundo ela, participar dos cuidados do filho é assumir que eles não são apenas de responsabilidade da mãe. Para que futuramente a palavra do pai possa ter efeito e valor para o filho, enfatiza, ele precisa estar envolvido desde cedo na sua criação. “A ausência vai ser certamente sentida posteriormente”, diz.

São grandes e delicadas as fronteiras que precisam experimentar os adultos no exercício de suas funções do ser pai e do ser mãe. A eles, cabe a árdua tarefa de guiar o filho em direção à autonomia; de direcionar, delimitar fronteiras e espaços de ancoragem que lhe deem segurança e, ao mesmo tempo, também suportar o afastamento que é necessário para que isso aconteça. Pois para ganhar, é preciso perder. Deixar de ocupar o lugar especial de bebê e passar a aventurar-se nas andanças da infância implica em uma grande perda para a criança, mas que, quando elaborada com a ajuda dos pais, pode trazer ganhos infinitos para todos, garante Fernanda.

 

Pai em tempo integral

A participação efetiva na vida do filho é o que vive o fotógrafo Yul Barbosa, 36 anos, pai do pequeno Claudio Henrique, o CH, de um ano e três meses. Trabalhando em home office, uma das decisões que ele e a esposa Ândria tomaram foi que nos primeiros meses de vida de CH, Yul seguiria trabalhando em casa, de olho no pequeno. Assim, seu dia é dividido entre produção de materiais e tratamento fotográfico e troca de fraldas e preparo de papinhas. E ele garante que adora!

“Uma das coisas bacanas de se ser autônomo/freelancer é poder fazer os próprios horários, então eu faço atividades mais lights, como trabalhar em redes sociais, site e responder e-mails durante o tempo que passo com ele, e me dedico ao tratamento de imagens e produção de material depois que a mãe dele chega”, conta Yul. Durante o dia, ele trabalha em uma sala e o pequeno fica brincando ao redor. É comum o fotógrafo parar o trabalho, sentar na sala com CH, brincar junto, olhar um filme, tirar uma soneca ou dar uma volta na rua para pegar um sol. “Quando a mãe dele chega, ela assume isso, dá de mamar (ele ainda não desmamou), brinca, aconchega. Coisas como dar banho, alimentação, troca de fraldas, a gente reveza, mesmo quando os dois estão em casa”, conta.

Passar a ser pai transformou não só a rotina, mas a própria essência. “A gente, como pai, nunca tem certeza de como vai ser. Como dizem, pai só nasce quando o filho nasce, enquanto a mãe é mãe desde o primeiro segundo de concepção. Eu imaginava uma rotina parecida, justamente por trabalhar em casa, mas tem muita coisa que só aparece quando a ficha cai. Principalmente a questão de responsabilidade, de ter em mente que uma ação, uma atitude, uma palavra, se tornam decisivos na formação dele”, garante Yul. Algo que ele não imaginava que precisaria fazer era abrir mão de certas coisas por ele. “Quando ainda não era pai, decidia que naquele dia não almoçaria, faria um lanche rápido. Hoje isso é fora de cogitação, pois eu preciso fazer almoço, que seja nutritivo e que o deixe bem alimentado”, ressalta. O fotógrafo também repensou toda a sua sistemática e logística de trabalho para eventos, dando prioridade para eventos mais próximos, que terminem mais cedo, e em locais com mais segurança, pra ter a certeza que estará em casa quando o pequeno CH precisar.

“Nós sempre brincamos que mãe é pra coisa séria, e pai é pra brincadeira, diversão. No fundo não deixa de ter lógica”, fala Yul. Para ele, a mãe é quem vai dar segurança, atenção, alimento nos primeiros dias de vida, e vai criar um laço incondicional de amor e presença. O pai tem uma relação que precisa ser construída. “Acho que é responsabilidade do pai mostrar como o mundo funciona, e preparar o filho para os obstáculos e desafios, e permitir que ele consiga se virar sozinho. Ao mesmo tempo, dizer “Olha, estou aqui pro que tu precisar. Pode contar comigo pro que der e vier”. Ser um porto seguro, e ser alguém em quem ele queira se espelhar na questão de caráter”, garante.

 

Trocar a fralda é o básico

Marcos Piangers

Pai que é pai troca fralda. Óbvio. Me aborrece essas pessoas que me perguntam: “Mas você é pai de verdade? Troca a fralda dos filhos e tudo?”. Me sinto em 1955. Só de existir essa pergunta a gente já vê que está tudo errado. Trocar a fralda é o básico. Dar banho é o básico. Colocar pra dormir é o básico. Acordar de madrugada é o básico. Dar comida de colher fazendo aviãozinho é o básico. É o básico do básico. Do básico.

Quero ver pai faltar ao trabalho pra ficar com os filhos. Sair mais cedo do trabalho pra pegar os filhos na creche. Faltar na cerveja com os amigos. Não comparecer ao amigo secreto do escritório porque o filho está com dor de garganta. Levar os filhos pro trabalho em um dia de reunião importante. Dizer não pra uma promoção porque precisa ficar mais tempo com os filhos. Trocar a fralda é fácil.

Quero ver abrir mão da sua vida por causa de outra pessoa. Quero ver dar dinheiro, tempo, sonho, amigos, juventude, todos os seus preciosos dias pra uma outra pessoa, pra que ela seja melhor. Pra que o mundo seja melhor com ela. Pra que a sua vida seja melhor, mesmo com todas as renúncias. Mães fazem esse tipo de coisa o tempo todo.

Quero ver falar sobre sexo com sua filha. Conversar sobre homossexualidade com seu filho. Quero ver esperar pacientemente seu filho de três anos tentar ler uma frase completa enquanto você atende um telefonema importante. Quero ver largar o celular por um sábado inteiro. E um domingo. Quero ver pedir demissão. Quero ver ensinar seu filho a ler, a escrever, a fazer contas, a andar de skate, a andar de bicicleta, a passar no vestibular, a dirigir, a tratar bem a namorada, a fazer intercâmbio, a casar, a cuidar bem do filho. Quero ver ensinar o seu filho a ser pai.

Quero ver você orgulhoso no dia dos pais, daqui a vinte anos. Quero ver você orgulhoso de ter sido pai de verdade. Quero ver você feliz, com seu neto no colo. Quero ver você trocando fralda do seu neto.

Vô que é vô troca fralda. Isso é o básico do básico.

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