É de menino ou de menina?

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Professora, não posso fazer trabalho com a fulana porque ela enfeita demais e vão achar que sou menina. Profe, os meninos não querem me deixar jogar futebol! Profe, o fulano parece mulherzinha, pois chora por tudo! Profe, posso criar um personagem menino, porque não quero escrever como menina. Profe, posso trocar a cor da minha folha? Roxo não !! É de menina!

As frases, nem todas reais, muitas inspiradas livremente no dia-a-dia de uma escola, são exemplos dados pela professora e pedagoga Camila Dolianiti. Segundo ela, as frases, fictícias ou não, também são ouvidas por outro viés: “Ah bom, professora, mas tu também tens que entender que ele não vai caprichar no trabalho, afinal é menino!” ou “Ah mas aqui falta capricho, pintura e dedicação, afinal, é uma menina!”. “A sociedade, a escola e a família buscam justificativas e estabelecem padrões para a questão de gênero”, afirma a especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional.

Na educação infantil, diz Camila, o brincar, a escolha dos parceiros e dos brinquedos, é bastante livre. Embora se escolham por afinidades, por maturidade e proximidade, em alguns momentos surge à fala do ser de menina e de menino, da cor de menino e de menina. “Demostram claramente a fala e a ação do adulto. Porém, neste momento a intervenção é mais fácil, o trabalho é descompromissado de aceitação de grupo. A criança se entrega mais ao grupo que pertence sem o medo de seguir com algum padrão”, enfatiza. A escolha dos brinquedos neste momento escolar reflete muito a reprodução do modelo, por isso neste momento a criança “imita” o que vê o adulto fazer. “Se a mãe cozinha, a menina acaba que brincando de cozinhar e assim com o menino, que ao ver o pai dirigir, encanta-se por carros. Mas neste momento cabe à escola permitir que a criança identifique e reproduza outros modelos que visualiza, outros fazeres que o sexo oposto faça e que este também possa ser  reproduzido no brincar como algo saudável e sem distinções. Neste momento a diferenciação sexual não aparece claramente”, explica Camila.

Ela diz perceber a distinção de gêneros e a influência maior sobre a criança conforme ela vai crescendo e passa a pertencer a um grupo escolar que exige aceitação e que pertença a algum grupo. “Meninos com meninos e meninas com meninas, a questão sexual passa a surgir, passa a se concretizar. As escolhas no geral passam a ser por gênero, os grupos de amigos distanciam-se por sexo, os aniversários, as conversas e interações.  Neste caso, tudo que destoe dos padrões culturais que ainda carregamos, acaba sendo pré-julgado e criticado”, aponta.

Mesmo reconhecendo que já se conseguiu uma grande evolução neste tema, Camila conta que o trabalho em sala de aula não é tão fácil e causa certo sofrimento á criança. “Por mais que ela deseje fazer algo que dizem ser do sexo oposto, ela não o faz por medo da não aceitação ou de ser ridicularizada. O trabalho exige conversa, intervenção e reflexão do grupo no geral, pois não basta intervir somente com aquele que está apresentando tal justificativa, pois o grupo acaba por julgar”, destaca a especialista.

E como buscar uma desconstrução destes conceitos? Segundo a psicopedagoga, não existe como educar sozinho, criar valores de respeito sem o modelo na família, sem a vivência diária e uma nova construção social.

Na outra ponta, os pais veem as descobertas dos filhos e suas escolhas no hora de brincar e se relacionar. Rita Cássia de Oliveira Kirsch, 43 anos, é professora e atualmente trabalha na secretaria de uma escola particular em Porto Alegre. Mãe de dois filhos, Rodrigo de 25 anos e João de 5, ela conta que o menor, quando tinha 2 anos, queria muito um irmão ou irmã bebê. “Providenciei uma boneca bebê, acessórios e roupas azuis e amarelas. Um dia, ele viu que o boneco não tinha “pintinho” e concluiu que era uma menina”, conta Rita. O pequeno então pediu um vestido e um laço para enfeitá-la, e lhe deu um nome. “Ele diz que é o irmão da boneca, e eu reforço para que dê sempre bons exemplos para ela. Fala que eu sou a mãe, o irmão é de ambos e o pai é o avô dela”, relata.

Na sua opinião, a boneca, na verdade, é o escape do filho para justificar bagunças e desordens emocionais e do ambiente. “Muitas vezes, quando algo está incomodando, João diz que a Lulu não quer comer, juntar brinquedos, está gritando… Converso que ela está crescendo e ainda aprendendo e, por isso, faz coisas que não dá para entender”, conta.

Na hora do brincar, porém, os carrinhos têm a preferência. João brinca também com bonecos de heróis, jogos de tabuleiro, quebra-cabeças. O pequeno, segundo a mãe, gosta muito também de brinquedos que possibilitam montar e desmontar como carros e bonecos, como  os cabeças de batata. “Ele escolhe alguns para levar para a escola, geralmente também para emprestar para os colegas que brincam juntos nos horários de recreio”, diz.

 

Em busca da igualdade

Em outra família, a busca pela igualdade de gênero começou pelas dificuldades enfrentadas pela mãe. Leticia Menin Giza conta que como compradora internacional trabalhou em grandes multinacionais e enfrentou muitos problemas relacionados a distinção de gênero relacionado principalmente a desigualdade salarial e de oportunidades. “Então, eu sempre busquei dar a minha filha a total liberdade com relação as suas brincadeiras e educação”, revela. Leticia é mãe de Rebecca, de quase dois anos, e espera Davi, no sétimo mês de gestação.

Ela diz que gosta de arrumar a filha com, por exemplo, uma faixa de cabelo, mas conta que  menina não usa brincos e grande parte das roupas e dos brinquedos são unissex. “Nós não exaltamos que nossa filha tenha que fazer as mesmas coisas de meninos, ou sequer damos preferências por coisas geralmente utilizadas pelo gênero oposto. Só procuramos dar a ela liberdade de ser e de brincar com aquilo que quiser”, relata.

Os primeiros brinquedos que despertaram o interesse da pequena Rebecca foram bolas e carrinhos. Hoje em dia, segundo a mãe, ela já se interessa bastante em brincar com as bonecas (ganhadas pelos tios e dos avós), sempre repetindo com elas o comportamento que os pais têm com ela. “Para breve, estamos preparando um playroom onde ela e o irmão dela tenham brinquedos que simulem o ambiente real como a cozinha, supermercado, etc. Não para ensina-la a fazer comida, mas porque a educamos com base em princípios montessorianos e buscamos incluir ela,  e o irmão que vai chegar, nas rotinas da casa. Ela a próposito, já sabe que deve colocar suas fraldas no lixo e nos ajuda com trabalhos domésticos como arrumar a cama, estender e recolher roupas, atividades estas, desempenhadas por mim e por meu esposo”, conta Leticia.

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