Depressão pós-parto, vamos falar sobre isso?

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É  grande o número de mulheres que se queixa de certa tristeza e irritabilidade depois de dar à luz. A criança nasceu perfeita, com boa saúde, todos estão felizes. Nada aconteceu de errado, mas, ao voltar para casa, são invadidas por uma espécie de melancolia que não sabem explicar. De acordo com a psicóloga Fernanda Rocha Medeiros, a tristeza pós-parto (ou baby blues) se dá nos primeiros momentos após o nascimento e tende a desaparecer no decorrer dos dias. Ela é resultado das inúmeras alterações hormonais pelas quais a mamãe passa, ocasionando maior vulnerabilidade nos estressores psicológicos, fisiológicos e sociais. “Períodos de tristeza são inerentes à espécie humana e assim é na “tristeza pós-parto, uma crise vital, cheia de mudanças e incertezas”, afirma.

Porém, há casos em que essa tristeza aparece algumas semanas depois do parto e se torna cada vez mais intensa. “O Transtorno Depressivo (depressão pós-parto) é caracterizado pela presença de tristeza profunda, humor irritável ou sentimentos de desesperança, culpa, fadiga, alteração de peso e/ou apetite, dificuldade para concentrar-se e tomar decisões. São episódios depressivos que seguem ao nascimento do filho. Quanto mais o bebê procura o afeto da mãe, ela, em contrapartida, pode sentir-se incapaz, enfraquecida e triste por não conseguir suprir suas exigências”, explica a especialista.

Segundo Fernanda, as causas são variáveis. “Muitas vezes, se trata do momento de crise pela transformação. Porém, em outros casos, são quadros depressivos e/ou ansiosos nunca diagnosticados que tomam uma proporção significativamente grave”. A psicóloga diz que as causas também podem variar de questões genéticas, do histórico familiar e de outros episódios sintomatológicos. “Falta ou pouco suporte social e financeiro, relacionamento conjugal conflituoso, baixa autoestima, uso e abuso de substâncias são alguns exemplos dos fatores de risco”.

 

NÃO SE SINTA CULPADA, PROCURE AJUDA

A advogada Bibiana Santiago, mãe de Cadu, 3 anos, relata a experiência que viveu:

“Fiquei um ano tentando engravidar. Minha gravidez foi altamente planejada e desejada. Mas, quando meu filho nasceu, começou uma tristeza, daquelas de doer o peito. Eu sentia amor também mas, ao mesmo tempo, ele era “desconhecido”, eu nem sabia direito o que fazer e lembro de sentir até um certo arrependimento. Com isso, veio a culpa imensa. Pela sociedade, a mãe tem a obrigação de estar feliz e radiante, então, quando sente algo diferente disso, você é julgada, afinal, ter um filho lindo e saudável e sentir tristeza é ingratidão, significa não ser uma boa mãe.

A tristeza durou cerca de 3 meses. Os cuidados com meu filho não mudaram, mas os cuidados comigo mesma e as tarefas da casa ficaram de lado. Eu não me alimentava direito, não tinha fome, sono, vontade de nada. Eu dizia para todos que estava tudo bem, pois tinha vergonha e me recusava a aceitar que estaria passando por esse problema. Quando minha sogra percebeu e me questionou, comecei a procurar na internet sobre o assunto e a participar de fóruns. Desabafava com desconhecidas que passavam pela mesma situação que eu, lia inúmeros artigos e reportagens e passei a entender do que se tratava. Isso me ajudou bastante.

É sempre vergonhoso falar sobre esse tema, pois a grande maioria das pessoas não aceita. Um filho deve ser motivo de alegria e felicidade plena, então, além de vergonha, quem passa por isso também sente extrema culpa. Olhando para trás, acredito que, se eu tivesse procurado ajuda profissional, como terapia, certamente teria me recuperado mais rápido. Nós temos que falar abertamente sobre isso, com todo mundo: seu marido, sua mãe, suas amigas. Somente discutindo como se não fosse tabu, mais mulheres irão se identificar e não passarão pela tristeza maior, que é justamente a culpa. Hoje, posso dizer que meu filho é a melhor coisa que aconteceu na minha vida, que é o amor mais puro, bonito e incondicional que já senti”.

 

COMO AJUDAR

A psicóloga reforça que é preciso respeitar aquilo que a mãe diz, sente e manifesta. “Quando os familiares e pessoas próximas afastam a ideia romântica de “mãe perfeita”, estarão ajudando de uma maneira acolhedora e respeitosa. Quanto mais a pessoa se conhece e sente-se segura junto àqueles que compartilha este momento, mais acessível e confortável será identificar qualquer situação de alerta”.

Confirmado o diagnóstico, o acompanhamento de um profissional especializado é fundamental. O tratamento deve ser feito com uma equipe multidisciplinar, valorizando a singularidade de cada pessoa, com intuito de identificar, tratar e prever sintomas que podem posteriormente intervir na relação da mãe com seu bebê. O atendimento oportunizará um espaço de informação, trocas, alívio das inseguranças e imperfeições, enfrentando frustrações e utilizando recursos internos para compreensão dos sentimentos. E principalmente, empoderando a mãe como capaz e proporcionando suporte para pensamentos e ações assertivas no cuidado de si e do bebê.

“Ao abraçar com compaixão aquilo que se sente, a pessoa estará pronta para enfrentar os medos e os julgamentos, principalmente, os seus próprios julgamentos. Não é fácil e requer esforço e coragem. É preciso encarar-se de frente, aceitar-se, perdoar-se, amar-se. Ao despertar esta coragem, o medo, a insegurança, a culpa, mesmo que permaneça na caminhada, não terá mais tanto peso, ficara mais leve, abrindo espaço para novas sensações”, completa a especialista.

 

 

ATENÇÃO AOS SINTOMAS

– Sentimento de tristeza ou desespero constante

– Mudanças de humor com duração maior que o esperado

– Desprazer nas atividades antes apreciadas

– Falta de interesse no momento que está vivendo

– Perda ou ganho de peso

– Dormir muito ou não dormir o suficiente

– Inquietação ou indisposição

– Cansaço

– Sentimento de indignação ou culpa

– Dificuldade para se concentrar ou tomar decisões

– Ansiedade e excesso de preocupação

* Se você tiver pelo menos cinco dos sintomas acima por duas semanas ou mais, procure acompanhamento psicológico.

 

 

Fernanda Rocha Medeiros

Psicóloga – CRP 07/22544

Individual, Casal e Família

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