A amamentação é um ato de amor

Children playing with musical toys. Isolated on white background
Dilema: abrir mão da carreira ou deixar o filho na creche?
23 de abril de 2016
amamentar

Há alguns dias atrás, uma gestante comemorou publicando em sua página no Facebook: “Sou uma metralhadora de leite – se sentido feliz”. Essa publicação bem humorada declara a felicidade e a importância de uma mãe sentir-se com possibilidades de dar conta do seu bebê, que chegará em breve.

O nascimento de um filho promove na mulher um incremento de ansiedades profundas relacionadas aos poderes que a maternidade agora lhe conferiu. O poder de gerar uma vida e o nascer como a inauguração de um outro ser humano que chega ao seu ventre e que da mãe depende inteiramente o seu desenvolvimento. Esse bebê precisa de alguém que possa alimentá-lo, mantê-lo aquecido e limpo. Já nos primeiros instantes de vida, o bebê é logo colocado junto ao corpo da mãe e recebe em seu alento palavras de afeto, sente o calor do seu corpo, recebe conforto e amor.

Apesar de o bebê ter passado cerca de nove meses dentro da barriga da mãe, alimentando-se do que ela se alimentava, respirando através dela, sentindo o fluxo de sangue correndo mais rápido nos momentos em que ela esteve mais agitada, sentindo os momentos em que ela se aborreceu, ou nos momentos em que ela se sentiu contente, após o parto, mãe e recém-nascido estão prontos a unirem-se mutuamente pelos laços de amor. Eles precisarão primeiro conhecer um ao outro, para depois de chegarem a uma compreensão mútua, passar a confiar um no outro e entender-se reciprocamente. Mesmo com todos os recursos de informação e de conhecimento que a mãe pode acessar com facilidade, a forma como cada dupla mãe e bebê vai atravessar por essas experiências é muito singular e dependerá não apenas do equilíbrio psíquico da mãe, mas também das intervenções dos que os rodeiam.

Já nas primeiras horas de vida, o bebê encontrará o seio materno e uma série de processos psíquicos serão instaurados nesse pequeno ser. São as necessidades de manter-se vivo que inauguram essa caminhada e alicerçado a isso, o bebê terá suas primeiras marcas de prazer. Ao sugar o seio pela primeira vez e receber o leite, espera-se que ele experimente não só a sensação de saciedade, como também viva uma experiência de satisfação que contempla o calor do corpo da mãe, o conforto de ser acomodado em seu colo com carinho, a oportunidade de agarrar as mãos e o seio da mãe, usar por vezes o seio como chupeta até adormecer, sentir sua pele e assim sentir-se humano, reconhecido como único para aquela que o ampara. Nas próximas vezes em que sentir fome e a ausência desse objeto que pode o satisfazer de todas essas formas, o bebê terá a capacidade de comunicar a sua necessidade. É na falta que se inaugura a nossa capacidade de desejar e de então criar. Sim, a criatividade e o desejo são processos iniciados neste encontro, pois na falta da mãe, o bebê é capaz de criar a possibilidade de sugar seus dedinhos como forma de imaginar a sensação esperada. Obviamente, se a fome não é sanada e sugar os dedos não alivia o desconforto da barriguinha vazia, o bebê vai comunicar através do choro que existe algo ali que necessita ser aplacado. Mas ele chora não só porque aguarda pelo leite e pelos nutrientes que o fazem sentir-se saciado e que o mantém vivo. Ele também espera por esse reencontro com a mãe e pela possibilidade de sentir novamente todas essas sensações prazerosas.

Cinthia Leuck Ortiz Cofferi – Psicóloga CRP: 07/22938, Psicanalista em formação pela Sigmund Freud Associação Psicanalítica cinthia.cofferi@gmail.com

Cinthia Leuck Ortiz Cofferi –
Psicóloga CRP: 07/22938,
Psicanalista em formação pela
Sigmund Freud Associação Psicanalítica
cinthia.cofferi@gmail.com

Cada gesto desse adulto portará mensagens relacionadas a si e ao que é ser alguém. A mãe já foi um bebê e traz dentro dela as marcas de tê-lo sido. Portanto, o ato de amamentar não se reduz a nutrir o bebê, mas também na acomodação e a atribuição de significados de todas essas experiências novas as quais o bebê está experimentando pela primeira vez. Amamentar é também olhar para além do que ocorre entre a boca e o mamilo e isso não será ensinado por ninguém. É o conhecimento intuitivo propiciado pela disponibilidade psíquica da mãe que a torna capaz de cuidar do seu bebê independente de qualquer aprendizado.

A saúde mental do bebê está sendo construída desde o início pela mãe, que oferece um ambiente facilitador onde todos os processos evolutivos e as interações naturais do bebê com o meio possam se desenvolver de acordo com o esperado. A complexidade do encontro da mãe com o bebê na amamentação precisa ser escutada em sua singularidade a fim de que aconteça de maneira prazerosa para ambos, afinal, esse momento é um ponto de partida fundamental para o desenvolvimento psíquico do bebê. A amamentação é também o ato de pôr em prática uma relação de amor entre dois humanos, e isso merece ser comemorado!

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